Domingo, 12 de Julho de 2009

POR TREZENTAS E TRINTA E TRÊS MOEDAS DE UM EURO




Fátima Coelho, operária da fábrica têxtil FERSONI foi despedida em Janeiro de 2007, após dois processos disciplinares. Em Abril de 2008 foi reintegrada depois do Tribunal de Trabalho de Famalicão ter declarado o despedimento ilícito.

Na passada quinta-feira, Fátima foi chamada ao Departamento de Recursos Humanos da FERSONI Fersoni para receber o ordenado de Junho. Esperava-a um saco de moedas de um euro, mais propriamente 333 euros e cinco cêntimos, que levaram 30 minutos a contar. A explicação foi a de que o salário estava a ser pago em dinheiro porque Fátima, delegada do Sindicato Têxtil do Minho e Trás-os-Montes, não tinha conta no Banco da Empresa.


À Fátima e a todos os que, duma forma ou doutra, são humilhados quando procuram ver reconhecidos os mais elementares direitos ao trabalho e no trabalho que garanta a sua subsistência, deixo este humilde poema que expressa a minha indignação e que pretende arregimentar outras indignações para que a consciência daquilo que somos não sucumba aos interesses vorazes da indiferença para com os mais frágeis e sacrificados.

Por trezentas e trinta e três moedas dum euro
Foi decretada a tua humilhação.
Um patrão que não suporta a tua altivez
De fronte digna capaz de dizer NÃO
Quer dobra-te à sua pequenez
Incapaz de entender o que é ganhar o pão
Neste universo macabro de surdez.

Trezentos e trinta moedas dum euro o que são?
São dores infindas de quem não se sustenta,
De quem vive morrendo e se aguenta
Mas a espinha não dobra, isso não,
Porque a alma não se compra por tal preço
A quem sempre se opôs à servidão.

Trezentas e trinta e três moedas que envergonham
Se vergonha houvesse em tal patrão.



HÁ VIDA EM MARTA - UM DESAFIO EM CÂMARA LENTA

A MARTAdeixou-me um desafio a que não poderia deixar de corresponder.

A Marta tem um espaço único com uma vida interior profunda, um espaço de beleza e sentimentos onde o repouso significa vida, porque viver é sentir bater o coração das coisas.

Ela quer que eu fale de cinco acontecimentos que mereçam ser recordados em câmara lenta. Não sei exactamente quais os cinco acontecimentos mais precisos e importantes mas relevo um primeiro amor, a vivência duma paixão intensa,a finalização do curso, o nascimento do meu filho e o nascimento do meu neto.

Já disse cinco mas há tantos outros... Acontecimentos simples, feitos de coisas simples mas que marcam toda uma vida.


Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

UM LUGAR INSEGURO




Todos nós pertencemos a um lugar inseguro. Todos nós vivemos sob ameaças constantes de cataclismos, guerras e outras catástrofes. Mas a maior ameaça é a que vem de nós mesmos e dos nossos semelhantes. É essa ameaça que nos rouba os afectos e nos torna vacilantes em percursos naturais que faz, em voo rasante, sinais que nos marcam, que nos destroem ou que nos constroem umas vezes sensíveis outras de granito.

Segundo um relatório do Comité Alemão da UNICEF, em Berlim, todos os anos perto de 150 milhões de raparigas e 73 milhões de rapazes menores são vítimas de exploração e violência sexual em todo o mundo.

A prostituição e a pornografia infantil são um negócio cujo lucro anual se estima em 8,3 milhões de euros, apenas ultrapassado pelo tráfico internacional de armas ou das drogas. A destruição enche os bolsos de uma elite que se quer venerada e que vende imagem numa imprensa sedenta de “notícia”.

Alguém indaga, depois de tanto indagar, qual o fim e os entraves ao processo Casa Pia? Que mudanças estruturais se verificaram, desde as primeiras denúncias, de forma a proteger dos predadores crianças indefesas entregues a Instituições?

Há dois dias a imprensa portuguesa noticiava o caso duma menor brasileira, de 16 anos, que tinha um sonho: estudar e ter uma carreira. Alguém lhe ofereceu trabalho e a possibilidade de continuar os seus estudos. Ela acreditou e viu-se prisioneira da dona duma casa de massagens que, sob ameaça de armas, a obrigou a prostituir-se.

A menor conseguiu fugir e pedir a protecção da policial. Conseguiu, assim, que esta casa, exemplo de muitas outras que impunemente são anunciadas nos jornais, fosse fechada e outras mulheres recuperadas duma prostituição forçada.

A jovem regressou ao Brasil, morto o sonho do estudo e da carreira nesta passagem traumática num mundo inseguro onde as pessoas se aproveitam umas das outras e onde os sonhos de glória através do esforço raramente acontecem.

Em Portugal do século XXI, há escolas que rejeitam alunos mais pobres (JN 09-07-05) assumindo assim, de forma clara, o papel de reprodutoras das desigualdades sociais que têm escondido na fachada da igualdade de oportunidades.

Nestes lugares inseguros, cruéis e agrestes, hoje só falei dos jovens não porque para eles o mundo seja mais inseguro, não porque a sua consciência seja mais ciente da sua insegurança, mas porque eles mereciam ter escolha e oportunidades que lhes são negadas.


Em todo o mundo e também neste.


Terça-feira, 30 de Junho de 2009

REGRESSO


Amigos, acabo de regressar de férias. Antes dum novo post vou aproveitar para pôr as visitas em dia e para me inteirar das novidades.

Por isso esperem por mim no vosso cantinho que venho com saudades vossas.



Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

PORQUÊ VIVER






O meu amigo REI DOS LEITTÕES, distinguiu-me com o prémio LEMNISCATA que reparto com mais seis nomeados.


Este prémio tem para mim um valor especial porque o Rei dos Leittões possui, para além duma ironia fina e resposta pronta para todas as situações, aquele culto da amizade, das raízes e da cultura que, mantendo vivas as memórias, dão sentido à vida.


Em época de globalização, de deriva e de destruturação, estes valores são algo de muito importante.


Por isso o espaço do meu amigo é para mim uma força que me acompanha neste direito de falar, de questionar e de não acomodar procurando uma partilha e (quem sabe?) um olhar diferente que permita uma maior justiça.


As regras deste jogo seria eu indicar sete blogues a quem passaria o prémio. Pus-me a pensar e optei por não indicar sete mas apenas um que simbolizasse a necessidade de reconhecimento.



Escolhi o FILIPE.


Filipe quero que saibas que este prémio é só para ti e que ele representa a resposta à pergunta que garatujaste num papel e que deixou triste a tua mãe Ray: PORQUÊ VIVER.


Filipe a gente vive para encontrar pessoas como o Rei dos Leittões. Pessoas autênticas e solidárias que nos ajudam a caminhar. É esse o sentido da vida. E tu fazes parte desse sentido, nunca o esqueças.







Não esqueça que está a decorrer, até 28 de Junho, a votação do post Aldeia da Minha Vida. Se quiser votar no meu texto clique AQUI





Terça-feira, 9 de Junho de 2009

ALDEIA DA MINHA VIDA - ÁGUA FORMOSA











Não existe uma aldeia da minha vida como lugar das minhas raízes e das minhas recordações. Tão pouco encontro nos lugares que descubro como viajante, uma aldeia com que me identifique e onde deseje repousar da minha turbulência urbana. Nasci e devo morrer cidatina embora a Aldeia seja a minha vida enquanto cultura e lugar solidário.

É essa atracção pelo porto de abrigo em que somos reconhecidos pelo nome, notados pela ausência e partilhados no silêncio dos afectos que me atrai e identifica.

E quando assim penso encontro um oásis nas minhas recordações. Encontro a Aldeia da Minha Vida nesta travessia nómada dos passos em que os rostos se me cruzam e confundem e me obrigam cansando de tanta expectativa normativa. E foi nesta fuga, em procura espaço e de contemplação, que fui ter a Água Formosa.

Era um dia de Inverno com muito sol, algures no Inverno passado, em que testava os olhos e o novo carro pelo concelho de Vila de Rei.

Atraída pela placa turística fui dar a um lugar único no mundo. Uma aldeia de xisto, incrustada na encosta dos montes, em que o marulhar das águas nos transporta para lugares incomuns nas nossas viagens pela sedução da paz e da combinação do Homem com uma natureza que existe de forma tranquila e hospitaleira.
Aproximei-me mais sem reparar que não havia retorno. Quando dei por mim tinha o carro atravessado numa pequena ponte donde seria quase impossível retirá-lo e nem vivalma se via. E, ainda que alguém viesse, que poderia uma pessoa simples e de muitos anos fazer contra a imprudência de uma louca cidatina?

Saio do carro e vejo que a manobra que fiz para o retirar acaba por comprometer decisivamente a sua saída. Do marulhar das águas e saltitando de pedra em pedra, surge um velho habitante com umas tábuas. Não sabia conduzir mas talvez as tábuas ajudassem…

Da outra casa vem uma senhora de lenço e avental trazendo na mão um caderno com o número do telefone dos bombeiros. E, neste calor da manhã fria, uma divinal ajuda se acrescenta. Um homem novo e ágil propõe-me retirar o carro se eu corresse o risco de alguma amolgadela.

Acedi e após muitas manobras o carro foi recuperado. O meu salvador era policia e trabalhava, tal como sua mulher, em Torres Novas tendo escolhido para viver aquele espaço de forte identidade. Naquele dia tinha ficado em casa por ter o filho doente. Ao vir à janela apercebeu-se que um visitante incauto precisava de ajuda. E não hesitou embora a tarefa não fosse fácil. A cultura de Aldeia faz milagres. Une as pessoas onde a pressão humana as separa.

Água Formosa, a 10 Km do Centro Geodésico de Portugal, tornou-se assim a Aldeia da Minha Vida. Não só pela beleza do lugar mas pelo reencontro com uma cultura que nos aproxima da vida onde a paz e a meditação ditam novas dimensões ao tempo e aos olhares longe do bulício e das competitividades doentias, em que as pessoas se digladiam em palcos de consumo, sem tempo para o amor ou simplesmente para olhar as estrelas que, nestes lugares, brilham tão próximas dos nossos pensamentos.




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Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

O AUTISTA PINTOR



Somos amigas de longa data, a Ray e eu. A Ray não é uma pessoa comum quer pela sua sensibilidade extrema, quer pela sua arte, quer pela força que imprime ao mundo de Filipe, um dos seus três filhos mas que ela ama duma forma especial por ele ser diferente. Filipe é autista mas para mim que o conheço através de muitos traços e informações, ele é uma autêntica lenda viva.

Filipe tem 22 anos e não fala. Nasceu como qualquer criança normal até que subitamente se distanciou e fechou num mundo onde nem Ray, sua mãe, consegue caminhar com conhecimento de causa.

Filipe é alfabetizado. Aprendeu a ler sozinho aos 3 anos de idade. Porém ninguém sabe o porquê do seu interesse pelos jornais que devora nem explicar os quadros que pinta com primor e que revelam uma interioridade multifacetada e misteriosa.

Quem é Filipe? Essa é pergunta que Raimunda quer ver respondida através da descodificação das suas pinturas por algum cientista que lhe interesse aprofundar a arte de Filipe. Ray não quer desfazer-se dos quadros que já foram objecto de exposição, porque eles representam uma ponte para o seu Filipe. Uma ponte que poderá dizer-lhe quem é realmente o seu filho, que sonhos e visões povoam asua mente.

Mas Ray também não desiste duma outra batalha surpreendente. Ela quer que o filho seja seja reconhecido como alguém que pode ganhar a vida através daquilo que sabe fazer: pintar e criar numa arte única e original que poderá ser aplicada nos mais diferentes contextos: decorações de interiores, moda e tantas outras. Filipe é capaz de criar por encomenda. Ray dispunha-se a acompanhá-lo a uma empresa que o aceitasse. Porém apesar dos muitos curricula enviados ninguém respondeu afirmativamente. Ninguém ousou arriscar na diferença.

Será que entre os meus visitantes há alguém que esteja disposto a isso? Eu confesso que já me senti tentada a arriscar um projecto mas as minhas ocupações actuais são em muito incompatíveis.

Todavia aqui fica o desafio e o convite para visitarem o blogue de FILIPE, e conhecerem as suas pinturas.


Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

O MUNDO A MEUS PÉS – BARACK OBAMA


Ser eleito Presidente da mais influente economia do mundo e da maior potência militar, é sentir que o mundo se tornou num palco pequeno que pode pisar como um chão que lhe pertence.

Pelo menos foi assim que se posicionaram os antecessores de BaracK Obama num passado recente. Porém este Presidente, eleito em tempos de crise trouxe em si expectativas de mudança das alas mais à esquerda da América e do mundo e, alguma resignação contrafeita das alas mais conservadoras que preferiram apostar neste novo rosto com vista a travar a onda de contestação e de instabilidade que se previa ser um autêntico tsunami na era pós-Bush.

Barack Obama sempre soube que não seria fácil contentar gregos e troianos e que a crise económica não se compadece das roturas ideológicas que impedem soluções consensuais. Tomando a economia como prioridade Obama viu-se confrontado com a necessidade de fazer concessões com vista a uma paz social indispensável a um novo ciclo de desenvolvimento.

Porém as suas promessas têm que ser cumpridas para que a credibilidade se mantenha e o high profile não se subverta em pura desilusão.

O primeiro sinal deu-se numa aproximação a Cuba através do levantamento da interdição de envio de divisas e da livre circulação de pessoas entre os USA e aquela ilha. Mas o embargo económico mantém-se.

Também em relação a Guntánamo Barack Obama insiste no seu fecho apesar do Senado se ter oposto a esta decisão e do antigo vice-presidente dos USA, Dick Cheney, criticar duramente Obama pela proibição dos métodos de tortura que, segundo ele, salvaram muitas vidas e pela decisão de encerrar Guantánamo.

Também na Universidade de Notre Dame, em que Obama discursou como convidado, ele enfrentou os apupos dos manifestantes católicos pelo seu discurso discriminalizador do aborto.

Apesar da melhoria de opinião que o mundo árabe revela em relação a este presidente dos USA face aos antecessores e da sua tentativa de diálogo com o Irão, Obama experimenta o peso das suas palavras quando o seu vice Joe Biden, apesar de vir demonstrando abertura para o reconhecimento dum estado palestiniano, praticamente lhe emendou a mão perante a afirmação de que os USA apoiariam a criação dum estado palestiniano com direito ao próprio território.

Mas se por um lado a ala mais conservadora da equipa de Obama revela algum desconforto perante uma visão nova e progressista numa América cristalizada no retrocesso, também na América Latina dos irmãos Castro a Hugo Chávez ou Evo Morales se sente a insatisfação pelas expectativas criadas em relação às políticas dos USA em relação à América Latina.

Igualmente inquieto está o Estado de Israel que não esconde o descontentamento e a inquietação perante as declarações Obama.

A eleição de Obama para presidente dos Estados Unidos foi uma eleição histórica pelos vários ingredientes que a compuseram. Porém este novo senhor da Casa Branca tem um caminho espinhoso pela frente. Ele não terá o mundo aos pés pela imposição nem pela força. Ele poderá sim, conquistar esse mundo através duma diplomacia e persistência ímpares.

A missão a que se propôs desafia todas as consciências e todos os saberes, dando largas à imaginação porquanto não sendo possível conciliar o inconciliável que espécie de Presidente vai mesmo ser Barack Obama?